CBR

 

06

fevereiro

2014

Artigo: Mais vagas, mais perguntas

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Em meio à polêmica das contratações para o programa Mais Médicos sem a revalidação dos diplomas expedidos no exterior, tem ficado em segundo plano – e não deveria – a ameaça de enxurrada de novas vagas de graduação em medicina no Brasil.

O Ministério da Educação anunciou a expansão de 11.447 vagas até 2017, sendo 3.695 em instituições federais e o restante – ou 67% do total – em escolas particulares. Também divulgou lista com 49 municípios pré-selecionados para a implantação de cursos de medicina por instituições privadas. A maior parte das cidades (53%) está na região Sudeste, que já concentra 56% dos médicos do país.

Paralelamente, o Ministério da Saúde diz que essas medidas visam formar novos médicos brasileiros para substituir os estrangeiros recrutados para o Mais Médicos. O programa tem 6,6 mil profissionais já atuando, entre os quais 80% cubanos. A meta seria atingir 13 mil até abril, com a justificativa de atender os 4 mil municípios que se cadastraram para receber os profissionais, mas sem explicar a relação entre essas quantidades e o mês estabelecido. O governo propaga, ainda, a criação de 12,4 mil bolsas de residência médica até 2018.

Nenhuma das pastas explica, contudo, a origem desses números mágicos. Fato: o país tem 19 mil vagas de medicina. Dúvidas: o que justifica aumentar este montante em 63% em quatro anos? Se mantida a atual proporção entre vagas e número de faculdades, passaremos de 214 para a incrível marca de 349 escolas médicas em 2017.

Fato: 55% das vagas pertencem a instituições privadas. O desenho da abertura das novas vagas elevará este percentual para 60%. Hoje, 10,4 mil famílias custeiam os estudos de medicina de seus filhos, cujas mensalidades têm alto valor. A Universidade de Marília, no interior de São Paulo, por exemplo, cobra R$ 8.886,82. Dúvidas: existem mais 7,7 mil famílias (74% a mais que o número atual) capazes de arcar com este investimento? O programa de crédito estudantil comporta o volume de financiamento? Diante de tamanho benefício econômico, qual a contrapartida oferecida pelas instituições privadas?

Fato: no Exame do Cremesp de 2013, obrigatório para os egressos do Estado de São Paulo, 59,2% foram reprovados ao responder sobre problemas comuns da prática médica. Dúvida: se ainda não há critérios para fiscalização das escolas, quais podem ser os resultados desta multiplicação de vagas?

Fato: a intenção do governo é, em cinco anos, aumentar a oferta de residência médica em 430%, contemplando áreas prioritárias. Dúvidas: será possível ampliar os serviços existentes nesta proporção e/ou criar novos serviços com a estrutura e qualidade necessárias, neste intervalo de tempo? Se atualmente, apesar do grave déficit geral, sobram bolsas em especialidades como medicina de família e comunidade, o que garantirá o preenchimento das novas vagas?

Fato: o governo pretende passar de 2 médicos por mil habitantes, em média, para 2,7 até 2022. Dúvida: depois disso, escolas médicas começarão a ser fechadas?

É provável que as respostas não venham. Em nenhum momento, o governo federal abriu diálogo com os médicos brasileiros a respeito dessas questões. Pelo contrário, tem agido a toque de campanha, como se tais decisões não tivessem consequências para toda a população. Cabe a nós persistir no esclarecimento da opinião pública. Afinal, informação fidedigna previne, trata e pode até curar certos males sociais.

DR. HENRIQUE CARRETE JUNIOR
Presidente do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR)

 

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