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Follow-up whole-body assessment of adipose tissue compartments

Artigo comentado por: Dr. Hilton Muniz Leão Filho

MACHANN et al. Follow-up whole-body assessment of adipose tissue compartments during a lifestyle intervention in a large cohort at increased risk for type 2 diabetes. Radiology (2010) vol. 257 (2) pp. 353-63

Os autores fizeram um trabalho prospectivo com pacientes em alto risco para desenvolvimento de diabetes mellitus do tipo II, avaliando cerca de 243 voluntários por ressonância magnética, antes e após o tratamento (9 meses) de mudança no estilo de vida. Os fatores de risco eram obesidade (IMC > 27 kg/m2), presença de parente de primeiro grau com diabetes do tipo II, história de intolerância à glicose ou de história de diabetes gestacional.

Os objetivos primários do tratamento eram a perda de 5% do peso corporal, redução na ingestão de 30% de calorias na forma de gordura sendo que menos de 10% desta gordura seria na forma saturada e exercício moderado pelo menos 3 vezes por semana.

Eles utilizaram as seguintes técnicas de Ressonância Magnética:
1. Cálculo de volume de gordura corporal total através de imagens T1 do corpo inteiro, dos dedos das mãos aos dedos dos pés, obtidos com o paciente na posição de decúbito ventral e com os braços estendidos. As imagens eram obtidas em cortes axiais de 10 mm e em seguidas processadas para o cálculo de gordura corporal visceral e total com técnicas de segmentação semiautomáticas.
2. Espectroscopia de prótons do fígado realizada no aspecto posterior do lobo direito, obtendo-se a concentração de água e gordura neste vóxel através do valor da integral dos picos dos mesmos. Em seguida era obtida a relação de gordura / água.
3. Espectroscopia de prótons de tecido muscular realizada na altura da perna com vóxels dispostos no tibial anterior e sóleo, direcionada para quantificação da gordura intramiocelular. Dados antropométricos também eram obtidos logo após o término do exame de RM, sendo coletados a idade, o índice de massa corporal (IMC), a razão cintura/quadril e a porcentagem de gordura corporal por bioimpedância. Eram ainda realizados teste de tolerância a glicose para determinar sensibilidade a insulina e teste de incremento de exercício.

A análise inicial não mostrou diferença estatística de IMC’s entre os sexos, sendo que os homens tinham menor quantidade de gordura total, com maior porcentagem de gordura visceral (inclusive na análise espectral do fígado e músculo). Os homens ainda eram mais atléticos e possuíam maior volume de massa magra em relação às mulheres.

A análise longitudinal mostrou como achado mais significativo uma redução na quantidade de gordura visceral em ambos os sexos, sendo 15,1% em homens e 15,8% em mulheres. Houve também redução na porcentagem de gordura hepática, estimada em 36,8% em homens e 16,5% em mulheres e na porcentagem de gordura muscular no tibial anterior (estatisticamente significativa apenas nos homens) em 12,3% nos homens sendo de apenas 6,9% nas mulheres. Houve ainda redução da gordura no sóleo, quantificada em 13% nos homens e 12,3% nas mulheres.

O desenvolvimento de sensibilidade à insulina, objetivo primário do trabalho, foi nitidamente dependente do sexo, observada em 30% dos homens e apenas 7,5% das mulheres, sendo que 71% dos primeiros tiveram melhora contra 58% das últimas. Quando foram avaliados os compartimentos de gordura associados com mudança na sensibilidade da insulina, observou-se que volumes elevados de gordura visceral e subcutânea (no torso) e alta porcentagem de gordura hepática estavam relacionadas a pouca melhora no nível de sensibilidade à insulina em homens. Nas mulheres o único fator relacionado a pouca melhora no nível de sensibilidade à insulina estava relacionado a alta porcentagem de gordura no fígado.

Na discussão os autores enfatizam os fatores cuja imagem ajudou a descriminar como importantes para se obter bons resultados em relação ao aumento da sensibilidade à insulina e diferenças nestes fatores em homens e mulheres. Eles ainda discutem uma tendência interessante de pacientes relativamente magros e com altos níveis de gordura intramiocelular no sóleo aparentemente se beneficiarem muito com a mudança de estilo de vida.

Outro aspecto importante é a disparidade entre perda de peso e parâmetros metabólicos. Enquanto poucos pacientes realmente reduziram o peso em 5%, houve melhora na sensibilidade de insulina mesmo naqueles com perda de peso mínimo, associado a alteração no perfil compartimental de gordura (porcentagem de gordura no fígado, por exemplo). Logo, mesmo pacientes que exibem pouca perda de peso, devem ser encorajados a permanecer no programa. Finalmente os autores discutem os problemas com a técnica e possíveis avanços que podem ser obtidos com o refinamento da mesma, seja com melhora do equipamento de imagem / parâmetros de aquisição ou mesmo com softwares mais sofisticados para reduzir o tempo de pós-processamento. Como conclusão o trabalho sugere que homens com baixos níveis de gordura visceral e no tecido subcutâneo são os que mais se beneficiam com o tratamento de mudança de estilo de vido sendo que baixos níveis de gordura hepática seria benéfica para ambos os sexos.