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Acurácia da TC de tórax no diagnóstico de infecção por SARS-CoV-2: experiência inicial em um centro oncológico

Neste mês, a Revista Radiologia Brasileira (RB) publicou em no formato Ahead of Print um estudo de suma importância para os radiologistas e a comunidade médica e cientifica como um todo.

Intitulado “Acurácia da TC de tórax no diagnóstico de infecção por SARS-CoV-2: experiência inicial em um centro oncológico”, o estudo, realizado pelos doutores Paula Nicole Vieira Pinto Barbosa, Almir Galvão Vieira Bitencourt, Gabriel Diaz de Miranda, Maria Fernanda Arruda Almeida e Rubens Chojniak, teve como objetivo avaliar a acurácia da tomografia computadorizada (TC) de tórax em pacientes com suspeita de infecção por SARS-CoV-2 em um centro oncológico.

Trata-se de um estudo retrospectivo e unicêntrico que selecionou 91 pacientes que realizaram TC de tórax e teste RT-PCR no mesmo dia. Os resultados da TC foram classificados em negativos, achados típicos, indeterminados ou atípicos. Acurácia diagnóstica, sensibilidade e especificidade foram calculadas para dois cenários: no primeiro, apenas TC com achados típicos foi considerada positiva. No segundo, achados típicos ou indeterminados foram considerados positivos.

Confira abaixo uma breve entrevista com os autores sobre o artigo que, além da versão em ahead of print, estará disponível no próximo número da RB.

Como foi feito este estudo?

Nós comparamos os resultados de exames de Tomografia Computadorizada com os resultados de teste de PCR em pacientes consecutivos sintomáticos atendidos no hospital com suspeita de Covid-19.

O exame de TC e do PCR foram feitos no mesmo dia e os achados dos exames de TC foram classificados de acordo com diretrizes internacionais já publicadas, de acordo com a suspeita para Covid-19.

Analisamos então a acurácia da TC para a presença de Covid-19 utilizando dois critérios de interpretação: num deles consideramos positivas para Covid-19 apenas as TCs que apresentavam achados já descritos como típicos, neste cenário de interpretação verificamos uma alta especificidade do teste e uma taxa mais baixa de resultados falso positivos. E, no outro critério de interpretação, consideramos positivas pata Covid-19 os exames de TC que apresentavam achados típicos ou indeterminados. Neste cenário verificamos uma alta sensibilidade da TC e uma taxa baixa de resultados falso-negativos.

Qual a contribuição deste estudo?

Como os testes de PCR são escassos e seus resultados demoram a sair, verificamos que a TC pode auxiliar na triagem neste grupo de pacientes sintomáticos. O resultado do exame de TC separa dois grupos, um com alta e outro com baixa chance de infecção por Covid-19 e, desta forma, pode auxiliar em decisões que precisam ser tomadas antes do resultado do teste de PCR.

Um aspecto interessante na análise dos resultados, é que sabemos que o teste de PCR também tem suas limitações, e que não são raros os resultados negativos em portadores de Covid-19. Diante disso, o desempenho da TC pode ser ainda melhor que o estimado pelos estudos que utilizam o PCR como padrão de referência, como no nosso trabalho. Alguns estudos sugerem que a TC pode ter sensibilidade superior ao teste de PCR em determinados contextos clínicos / populações.

Como podemos adotar esta informação na prática em nosso meio?

Num contexto de recursos e estrutura limitadas onde podem faltar testes de PCR, o resultado do teste de PCR demora a sair, faltam unidades de isolamento e leitos de UTI, como já verificamos em alguns locais do Brasil, é necessário tomar decisões sem o resultado do teste de PCR. Quem vamos testar? Quem vamos hospitalizar, isolar, ou internar em leito de UTI enquanto não sai o resultado do teste de PCR?

O Resultado da TC, apesar de não ter a acurácia ideal para um teste de diagnóstico de Covid-19 e de não poder verificar diretamente a presença do vírus, tem desempenho suficiente para ajudar na triagem, na decisão de alocação de recursos, particularmente no critério de maior especificidade que considera apenas os achados típicos. Priorizando o uso de recursos para pacientes com alta probabilidade para a doença.

O outro critério de interpretação, que considera também os achados indeterminados é mais sensível, não perderá muitos pacientes contaminados, porém, tende a demandar recursos para um número maior de pacientes pela taxa elevada de resultados falso-positivos.

Percebemos que esta é uma forma de utilização da TC que já vinha ocorrendo na prática em alguns centros e para alguns pacientes.

Este perfil de utilização está sendo adotado por sociedades internacionais?

A maioria das sociedades internacionais não vinham recomendando a TC como teste diagnóstico sistemático, ou de rastreio para todos os pacientes com suspeita de Covid-19. Mas isso se deve ao reconhecimento de que os resultados falso-positivos e negativos não são incomuns. Outras viroses e patologias podem ter achados semelhantes ao Covid-19 e, principalmente no início da infecção sintomática, a TC pode não mostrar alterações pulmonares. Mas, no cenário em que estamos sugerindo a indicação da TC como teste de triagem, não é uma situação convencional de amplo acesso aos recursos de diagnóstico e tratamento. Esta abordagem foi utilizada por autoridades de saúde chinesas e o consenso sobre a utilização de métodos de imagem para o manejo do Covid-19, publicado recentemente pela Fleischner Society, uma conceituada sociedade internacional de radiologia torácica, já passou a prever o tipo de aplicação da TC durante a pandemia. Acreditamos que com o acúmulo de experiência e informações esta abordagem deverá ser considerada em situações de escassez de recursos.

RESULTADOS

A média de idade dos pacientes foi de 58,2 anos, sendo a maioria homens (60,4%) e com história de câncer prévio (85,7%).

A TC demonstrou achados típicos em 28,6%, indeterminados em 24,2% e atípicos em 26,4%.

Resultados da RT-PCR foram positivos para SARS-CoV-2 em 27,5%.

Sensibilidade, especificidade e acurácia no primeiro e segundo cenários foram, respectivamente, de 64,0%, 84,8% e 79,1%, e 92,0%, 62,1% e 70,3%.

CONCLUSÃO

A TC tem alta acurácia para o diagnóstico de infecção por SARS-CoV-2. Diferentes critérios de interpretação fornecem maior sensibilidade ou especificidade. A TC deve ser integrada como um teste de triagem em ambientes com recursos limitados durante a pandemia, para ajudar na otimização da utilização de testes de PCR, leitos de isolamento e unidades de terapia intensiva.

A RB é a publicação científica oficial do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR) e integra o grupo de periódicos indexados à SciELO (Scientific Electronic Library Online), à LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde), à SCOPUS e ao PUBMED CENTRAL.

Leia o artigo: http://www.rb.org.br/detalhe_aop.asp?id=3269

Disponível também pelo App Biblioteca Digital CBR (Android e iOs)

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Escrito por

Milena

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